Godzilla: O triunfo do Rei dos Monstros

Se seu medo é o de ver um filme parecido com o de 1998, esqueça. O Rei dos Monstros ganhou uma adaptação ocidental à altura, nas mãos do diretor britânico Gareth Edwards. Godzilla pode, sim, ser considerado um genuíno filme do gênero “kaiju”; porém, revelar o porquê seria um baita spoiler. O que se pode dizer é que, na tentativa de se aproximar mais do estilo japonês, o novo longa-metragem toma uma decisão corajosa para um blockbuster hollywoodiano, que pode não agradar o chamado “público médio”, os que não são fãs de longa data do gênero. Mas funciona. E funciona lindamente.

E essa não é a única decisão corajosa deste filme. A virada do primeiro para o segundo ato vem com não um, mas dois grandes choques; o já citado acima, e outro, relativo à escolha de elenco. E é aí que o filme mostra a que veio.

O primeiro ato é focado no personagem de Bryan Cranston (Breaking Bad) e sua paranoica busca pela verdade sobre os abalos sísmicos que se passam anos antes da trama do filme. Ele acredita que, ao contrário da versão oficial, “algo” está tentando se comunicar; e acaba arrastando seu filho, o soldado do esquadrão antibombas vivido por Aaron Taylor-Johnson (Kick-Ass), em sua busca; o que inevitavelmente leva ao centro de pesquisas chefiado pelo cientista vivido por Ken Watanabe (Inception), e ao nosso querido lagarto gordinho radioativo, Godzilla.

Existe, sim, neste ponto, o foco no relacionamento entre pai e filho, sustentado pela sempre eficiente atuação de Cranston, mas depois disso, com os dois inesperados twists já citados, o filme muda e se foca na perseguição ao monstro, que se dirige aos Estados Unidos por conta da alta concentração de energia nuclear no deserto de Nevada, devida a sucessivos testes do governo ao longo dos anos – ou seja, fazer o filme se passar nos EUA faz sentido.

O rastro de destruição em Las Vegas.
O rastro de destruição em Las Vegas.

A relação com o primeiro filme da franquia, de 1954, fica clara aqui: o dilema de vencer um monstro que foi despertado pelos testes nucleares fazendo uso de mais energia nuclear, desafiando a força da natureza e encarando o fato de sermos, sim, muito pequenos perto do que esta natureza contém.

Se este filme tem um defeito, talvez seja o de não ser tão relevante quanto o original, que era uma clara representação do medo japonês da bomba atômica, poucos anos depois de Hiroshima e Nagasaki (citados neste filme). Aqui, o monstro não parece tão representativo, surgindo apenas como uma grande e imparável força da natureza.

Por isso, este Godzilla se assemelha mais aos outros filmes da franquia, tanto em clima quanto em enredo. É um ótimo filme de ação com efeitos especiais eficientes. É, acima de tudo, uma ótima experiência visual, que sabe muito bem criar imagens icônicas e memoráveis (por exemplo, a cena da chegada de um trem em chamas), sem medo de usar o que o público quer ver: o Godzilla.

Taylor-Johnson e o trem.
Taylor-Johnson e o trem.

Todas as cenas com o monstro são boas. Sem exceção. A primeira aparição do Godzilla, por exemplo, é para ficar marcada na história da franquia, no mínimo; primeiro o pé, depois um travelling por todo o corpo até chegar ao close-up no rosto e o urro característico. E ainda tem a baforada atômica! A primeira cena na qual ela é usada é uma das melhores do filme, com certeza.

Tanto é que essas cenas deixam um gostinho de “quero mais”. São poucas e em geral curtas. Poderiam se estender bem mais. Boa parte do 2º e 3º atos são focados na ação do exército e do personagem de Taylor-Johnson tentando derrotar o monstro e chegar vivo à sua família. Existe, inclusive, uma interessante “rima” entre as ações de Taylor-Johnson e do Godzilla, no 3º ato, muito pertinentes, tematicamente, ao que o filme se propõe, que é discutir a relação do homem com a natureza.

Godzilla é exatamente o que se propõe: um filme do Godzilla. Pode parecer óbvio, mas nós, ocidentais, sabemos que não é. É um longa-metragem inteligente em sua narrativa, que faz com que nos importemos tanto com os humanos quanto com o próprio Rei dos Monstros, chegando a emocionar nos minutos finais. Um filme digno do grandioso “GOJIRA”.

Pôster da versão em IMAX.
Pôster da versão em IMAX.
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Leo Kitsune

Assistente editorial na JBC, alquimista federal especializado em pagode dos anos 90. Lendo mangás profissionalmente desde 2013.

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