Ultraman 50 anos!!

Foi no dia 17 de julho de 1966 que a história das séries de heróis japoneses mudaria para sempre. Nessa data Ultraman estreava na TV TBS. Sucesso instantâneo, a criação de Eiji Tsuburaya gerou novas séries, novos heróis e inúmeros filmes para os cinemas.

filminhoUltraman não só se tornou o maior herói japonês e um dos principais ícones da cultura pop japonesa. O herói vindo da Nebulosa M-78 ganhou o mundo. Fez da infância de inúmeras crianças nos mais distantes países mais feliz e divertida. E o Brasil não ficou de fora. Exibido no país desde os ano 1970, a série clássica foi ao ar pela Bandeirantes, Record, SBT, Manchete e CNT.

Ultraman teve ao todo 39 episódios, mas suas aventuras perduram até hoje seja na memória de seus fãs ou em reprises e nos lançamentos em novas mídias.

Para comemorar os 50 anos do herói, recorde com a Henshin a entrevista concedida com exclusividade à nossa reportagem em Tóquio em 2002 por Susumu Kurobe, ator que viveu Hayata, membro da Patrulha Científica que sempre que estava em perigo usava a Cápsula Beta e se transformava no Ultraman… Ultraman… Ultraman…

Henshin: Como o senhor foi escolhido para o papel de Hayata?

Kurobe: Eu tinha um contrato de exclusividade com a produtora de filmes Toho. Não fiz teste para ser escolhido. Como trabalhava lá, eles me disseram para fazer esse papel.

H: Então o senhor nem conhecia o projeto até ser chamado?kurobe_5

K: Não, eu não sabia de nada.

H: E como era a popularidade de Ultraman na época em que estreou?

K: O programa foi ao ar quando estávamos no meio das gravações. O índice de audiência era alto, cerca de 30% desde o começo. Chegou ao patamar dos 40%. Não me lembro se era às 6h ou 7h, mas ouvi dizer que as crianças não tomavam banho nessa hora porque ficavam na frente da TV.

H: A máscara do Ultraman era aquela desde o começo?

K: Sim, o design estava definido desde o início.

H: Mas é verdade que aquela primeira máscara usada derretia durante as gravações e por isso era toda deformada?

K: Não era tão bem feita como as máscaras de hoje e ela esquentava bastante mesmo. Não chegava a derreter, mas era bem grosseira.kurobe_4

H: Por isso a máscara mudou no meio da série?

K: Usaram essa máscara ao longo dos primeiros episódios, mas ela foi sendo aprimorada aos poucos. Não havia melhorado muito até a gente terminar, mas depois do fim da série, participamos de vários eventos, sessões de fotos, e ela foi sendo refinada, resultando na atual, mais bonita.

H: O senhor chegou a usar a roupa do Ultraman?

K: Não. Depois da transformação, outra pessoa entrava em ação.

H: Não houve nenhuma oportunidade para vestir o traje?

K: Não.

H: Como é saber que o personagem que o senhor interpretou se tornou tão conhecido no mundo inteiro até hoje, sendo comparado até ao Super-Homem e ao Batman?

K: Ultraman ficou famoso bem mais tarde no mundo do que no Japão. Depois de terminarmos as gravações, que duraram cerca de um ano. A série já tem 35 anos [*atualmente 50 anos], mas deve ter ganhado essa fama internacional há uns 20 anos [*atualizando: 35 anos]. Fico muito feliz, claro. As entradas do Super-Homem e a do Batman no Japão, por exemplo, marcaram época para nossas crianças. Saber que o Ultraman fica lado a lado com esses heróis é realmente uma honra.

tiroH: O senhor já recebeu cartas ou e-mails de fãs de outros países, como por exemplo do Brasil?

K: Já recebi cartas de fãs dos Estados Unidos, mas do Brasil nenhuma.

H: Mas Ultraman é muito famoso no Brasil. O que acha dessa fama? Dava para imaginar que isso pudesse acontecer?

K: Acho que não prevíamos que isso aconteceria, mas como no Japão o índice de audiência era alto, foram produzindo mais séries dos Ultras. Mesmo assim não imaginávamos na época que atrairia tantos fãs aos longo desses 35 anos [*hoje já são 50 anos].

H: Qual era a participação de Eiji Tsuburaya na produção?

K: Ele era o coordenador de produção. O papel dele era ver o episódio, dizer o que estava ruim e como fazer melhor.kurobe_3

H: Então vocês trabalharam juntos?

K: Sim, várias vezes. Ele trabalhava para a Toho fazendo filmes como o Godzilla e tivemos diversas oportunidades de nos encontrar. E claro, ele também apareceu algumas vezes no estúdio de filmagem de Ultraman. Também trabalhei com Eiji Tsuburaya na Warner Brothers. Participei de um filme do Frank Sinatra – e ele foi o diretor de efeitos especiais. O filme se chama Os Bravos Morrem Lutando (None But The Brave,1965).

H: E o que achou da experiência de trabalhar em uma produção norte-americana ao lado de um ícone dos cinemas e da música como Frank Sinatra?

K: A escala da produção americana é incomparavelmente maior que a japonesa. Mas eles me trataram muito bem.

H: E como foi a sua relação com Eiji Tsuburaya durante a produção de Ultraman?ultra 1

K: Ele foi muito gentil conosco e não opinava muito no nosso trabalho, mas com a equipe de produção ele era bem rigoroso.

H: Como foi o show feito ao vivo no teatro para fazer um tipo de pré-estreia de Ultraman?

K: Foi em Tóquio, num lugar chamado Suginami Koukaido onde encontramos mais de mil pessoas. Todo o elenco foi com os uniformes da Patrulha Científica, havia uma pequena história onde apareciam o Ultraman e alguns monstros. Já faz uns 36 anos [*agora já são 51 anos!].

H: O senhor já participou de Kamen Rider?

K: Fiz um vilão na série Black Kamen Rider.

H: E como foi fazer um vilão depois de ser um herói tão famoso?

K: A maioria dos personagens que interpreto hoje são vilões. Recebi muitas cartas de fãs pedindo que o Ultraman, um herói que apoia a justiça, não fizesse esse tipo de papel. Mas é divertido para mim. Por isso, se me oferecerem, eu aceito.

H: O senhor ainda tem contato com os outros atores que participaram de Ultraman?Mephilas

K: Com o Koji Moritsugu, mas ele era do Ultra Seven… Do Ultraman tem a Hiroko Sakurai, que fez Fuji; e o Dokumamushi, o Arashi.

H: O senhor e o Koji Moritsugu participaram de O Regresso de Ultraman, não?

K: Sim. Também voltei ao papel de Hayata outra vez, quando o Ultraman e o outros heróis se reuniram em Ultraman Tarô, mas foi só uma vez. [*atualizando: nos anos que seguiram a entrevista, Kurobe voltou ao papel de Hayata nos filmes e na série do Ultraman Mebius e também nos longas do Ultraman Zero].

H: O senhor não tem vontade de voltar a encarnar o Ultraman, como faz o Koji Moritsugu com o Ultra Seven?

kurobe_2K: Agora não tenho tanta resistência a essa ideia. Antes eu tinha, não queria mais fazer programas para crianças.

H: Como assim?

K: Não é uma questão desses programas voltados para o público infantil serem bons ou ruins, é minha política. Eu não queria estender minha participação de um jeito “forçado” só porque Ultraman foi um herói que marcou época.

H: Há algum episódio em particular do qual você tenha gostado mais?

K: Tem um onde aparece o Cemitério dos Monstros, dirigido por Akio Jissouji, em que a criatura é derrotada pelo Ultraman. Mas depois fazem um túmulo para ele e as crianças rezam ao redor. É uma cena impressionante. E também a história do monstro Woo. Ele era branco e a batalha é na neve. Ele perde do Ultraman e vai desaparecendo no meio da neve. Também me marcou bastante.

H: Mas essa cena não foi feita com efeitos especiais?kurobe_1

K: Não, só na luta. Acho que filmamos a cena do monstro sumindo na paisagem na província de Niigata.

H: Então o senhor também não viu O Regresso de Ultraman e as outras séries que se seguiram?

K: Não. Mas vi algumas vezes o Ultraman Tiga, em que minha filha aparece.

H: Você não teve vontade de contracenar com ela na série?

K: Não. Mesmo que eu quisesse participar, não poderia se não tivesse uma oferta, um papel. E não me foi oferecido nada. O Ultraman, digo, o Hayata não pode aparecer muito, porque para as crianças ele era um herói. E se sai em tudo quanto é lugar, a imagem dele acaba ruindo. O Hayata acaba sendo desvalorizado. Por isso, é melhor ele não aparecer muito. Nos outros programas, tudo bem, mas não na série Ultraman. Mas depois de velho já apareci algumas vezes, como o tiozinho da bicicleta, da padaria, mas não como Hayata.

H: E o que achou da série do Tiga?

K: Há várias partes criadas com o uso de computação gráfica. É muito bonito, mas tenho a kurobe_8impressão de que falta “calor”. Na nossa época, era tudo feito à mão, o set era pobre, mas tinha mais “sabor”.

H: O que o senhor achou da criação da Família Ultra?

K: Acho um pouco exagerado, há 28 deles agora [*hoje, segundo o site da Tsuburaya, já são 42. Incluindo o novo Ultraman Orb e sem considerar as várias formas que os personagens mais recentes podem assumir, só as fusões]. Na última versão, no Ultraman Cosmos, faço um guarda. Fui convidado para dar um toque especial e para que os ultra-fãs digam: “o Hayata apareceu naquela cena”. Mas sinceramente, acho exagero.

raioH: Quando o senhor participou do Ultraman Zearth, foi como o Hayata?

K: Na verdade, isso foi só uma canja para os fãs.

H: Mas no Zearth se repete a confusão da Cápsula Beta com uma colher…

K: Bom, isso também foi uma canja. No passado, o Hayata confunde a Cápsula com uma colher, e essa cena ficou famosa. Um dos membros da equipe pediu que eu a repetisse, mas não foi como o Hayata.

H: E o senhor pensa em fazer o papel de Hayata hoje?gala

K: É claro que não! Já tenho 62 anos [*hoje Susumo Kurobe está com 76 anos]! Não posso voltar à juventude. Tudo bem se o Hayata voltar ao espaço, envelhecer e retornar à Terra, virando chefe de um instituto de pesquisas ou cientista. Mas não posso mais fazer o Hayata original, o herói.

H: E o que o senhor acha dos atores que aparecem nas novas séries?

K: Acho que nós cinco éramos melhores (risos). Nosso trabalho em equipe era bom. Agora, os trajes são mais bem feitos, com capacetes, cintos. Nós usávamos coisas mais simples – foi há 35 anos [*agora, há 50 anos], não tinha jeito. As crianças podem preferir o que é mais vistoso, mas o primeiro Ultraman teve muito impacto.

H: A imagem do Ultraman é usada em vários lugares, como funciona o pagamento de direitos autorais?

K: Não recebemos nada. Eles podem reprisar várias vezes, mas os atores não têm direito. No caso dos EUA é diferente, porque há união. Mas no Japão não há.

EBMRtJ

Entrevista publicada originalmente na revista Henshin! #26

Créditos:
Marcelo Del Greco (texto e perguntas)
Yayoi Wada (entrevista)
Akira Ueno (fotos)

Você pode se interessar também por...